Há dois tipos de gênio

Há dois tipos de gênio: o que antes de tudo fecunda e quer fecundar, e o que prefere ser fertilizado e dar à luz. Assim também existem, entre os povos de gênio, aqueles a quem coube o problema feminino da gravidez e a secreta missão de plasmar, amadurecer, consumar – os gregos, por exemplo, foram um povo desse tipo, e também os franceses –; e aqueles que têm de fertilizar e ser causa de novas ordens de vida – como os judeus, os romanos e, perguntando com toda a modéstia, os alemães? –, povos enlevados e atormentados por febres desconhecidas, irresistivelmente arrastados para fora de si, apaixonados e ávidos de outras raças (as que “preferem ser fertilizados” –), e com isso dominadores, como tudo que se sabe pleno de força fecundante e, portanto, de “graça divina”. Esses dois tipos de gênio se procuram, tal como o homem e a mulher; mas também se entendem mal – como o homem e a mulher.
Friedrich Nietzsche.